BIOÉTICA DAS VIRTUDES – Confiança: O Elevar da Empatia -Apresentado no VII Congresso de Humanização e Bioética-

BIOÉTICA DAS VIRTUDES

         Confiança: O Elevar da Empatia

Teri Roberto Guérios

INTRODUÇÃO – No momento em que um paciente adentra ao consultório do médico, inicia-se uma relação que, apesar de comercial, certamente irá a tal transcender. Do sucesso desta relação emergirá ou não um vínculo de confiança entre as partes, chamada relação médico-paciente. Ambos os sujeitos da relação desejam confiar, apoiar, amar, respeitar, etc. Em ambos encontram-se os mesmos sentimentos, paixões, temores e expectativas. Defender-se-á aqui que a relação médico paciente seja apoiada muito mais por uma ética centrada nas virtudes e menos por normas ou regras deontologicamente  ou normatizadamente estabelecidas.

DESENVOLVIMENTO – Em Ética a Nicômaco, Livro I, Aristóteles define que a busca do homem sempre será pela felicidade. A felicidade só é atingida ao se conseguir a excelência moral através do “agir virtuosamente”. Só se faz o bem a si e à sociedade em sendo virtuoso. Assim, se pratica o bem e se atinge a felicidade como o fim, ou telos (τέλος), das virtudes. Aristóteles entende por virtude (ἀρετή) como a predisposição de se realizar o bem. Portanto, a ética da virtudes de Aristóteles se acopla necessariamente à profissão médica, onde nesta se busca, como fim, um bem (prevenir, curar ou atenuar as doenças e promover a saúde ou dar suporte e tratamento às enfermidades), o qual necessariamente redundará em felicidade.. No Livro II de Ética a Nicômaco, Aristóteles ainda afirma que nenhuma virtude moral surge em nós por natureza. Para ele, se um indivíduo necessita aprender para ser médico, também o pode fazer para ser virtuoso. Para isto, prescreve a prática das virtudes morais, no sentido de aprimorá-las na busca do bem.

Divergindo parcialmente de Aristóteles, David Hume parte da concepção de que a moral, antes de ser aprendida, esta em nós mesmos. Ele afirma que o vício e a virtude, tal como as cores, não são qualidades do objeto em si, mas estão dentro da nossa mente/percepção. Para Hume, a verdadeira origem da moral é a sympathy (simpatia ou mais precisamente compaixão em português), que é a capacidade de sentir o que os outros sentem, ao que se dá o nome de Princípio da Simpatia. Este sentido de compaixão, chamado também de empatia, é treinado e estimulado nos médicos quando da sua formação profissional.

Ambos os filósofos, potanto, concordam que qualquer valor ético NÃO emerge de um dever definido ou uma norma estabelecida, norteado por uma Ética Deontológica ou Normativa, mas se atrela às virtudes e/ou às paixões.

Defendendo uma Bioética das Virtudes, Edmund Pellegrino e David Thomasma, em For the patient’s good, apontam que tanto profissionais da saúde quanto pacientes devem exibir e possuir qualidades morais, ἀρετή (virtude), a fim de que o τέλος (telos) social e humano da medicina seja atingido. Consideram que este telos (τέλος), que eles nominam healing (que não é a simples prevenção e a restauração da saúde, ou a cura, mas o restabelecimento da funcionalidade normal de um paciente como um todo), só será alcançado em se havendo uma relação médico-paciente virtuosa. Assim, healing é mais do que simplesmente cura, expandindo-se aos domínios biológico, pessoal e social. Defendem a ética das virtudes como sendo a mais adequada aos fins da medicina, pois uma mera ética deontológica não pode dar conta de “vigiar” ou “coibir” o profissional na sua intimidade ou na privacidade de sua atuação professional.

O pilar central da relação humana médico-paciente é a empatia (sympathy). Através desta, o médico consegue simular (usando o substantivo adotado por Adam Smith) a situação do paciente, imaginar seu sofrimento, suas agústias e expectativas (estimulando suas virtudes) e, ao mesmo tempo, se manter longe emocionalmente, evitando assim sofrimento próprio pela mazela do outro (acionando sua empatia). E neste enfoque da relação médico-paciente, é superior a eficácia da Ética das Virtudes no sentido de atingir o almejado desejo, qual seja, uma atuação permeada por uma moral de maneira humanizada do profissional da saúde para com o paciente e uma atitude respeitosa e digna deste paciente para com o profissional que o assiste.

CONCLUSÃO – Tão menos fragilidade e desacordo haveria na relação, quão mais se colocasse em primeiro plano, antes da pecha de um acordo comercial, um acordo de confiança mútua, com ambas as partes, respeitando os desejos e expectativas do outro; de modo que, o agir empaticamente para o médico, não seja “fingir” que se importa com o problema de seu paciente, e tão pouco sofrer por este problema, mas, argumentando como Aristóteles em Etica a Nicômaco, seria agir numa mediana, onde agir com empatia pelo outro se faça presente, mas nunca a ponto disto influenciar, seja por sentimentalismo ou por indiferença, em uma decisão racional que o médico venha a tomar em prol do seu paciente. Por derradeiro, tendo a medicina como τέλος a busca de se fazer o bem (sempre enfatizado no próprio juramento de Hipócrates que todo indivíduo faz ao término de sua graduação médica), a melhor via a se atingir este fim, e que culminará em eudaimonia (ou alcance da felicidade no fim do ato) aos envolvidos nesta relação, será inexoravelmente através do cultivo da ἀρετή. Possuir virtude (ἀρετή) faz-se um requisito a todos os seres humanos que compõem e estão diretamente relacionados à relação médico-paciente.

1-ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W.D. Ross. São Paulo: Abril Cultural, 1980. Os Pansadores.
2-AQUINO, T. Suma Teológica. Volume I, III e IV. São Paulo: Loyola, 2005.
3-HUME, D. Enquiries Concerning Human Understanding and Concerning the Principles of Morals. Oxford: Univ. Press 1996.
4-MACINTYRE, A. After Virtue, A Study in Moral Theory, Third Edition, University of Notre Dame Press, Notre Dame, Indiana, 2007.
5-BEAUCHAMP, T. & CHILDRESS, J, Principles of Biomedical Ethics. Oxford: University Press, 2009.
6-MANSON, N. C., & O’Neill, O. Rethinking Informed Consent in Bioethics. Cambridge University Press, 2007.
7-PELLEGRINO, E. & THOMASMA, D. C. For the Patient’s Good: The Restoration of Beneficence in Health Care. New York: Oxford University Press; 1988.
8-DALL’AGNOL, D. Ética, Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2014.

Juramento de Hipócrates

 

A Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial – 1948, a mais antiga e conhecida de todas, tem sido utilizada em vários países na solenidade de recepção aos novos médicos inscritos na respectiva Ordem ou Conselho de Medicina.

           A versão clássica em língua portuguesa tem a seguinte redação:                                               (fonte – http://www.portaldafamilia.org.br/datas/medico/med003.shtml)

“1-Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. 2-Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão. 3-Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. 4-A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. 5-Respeitarei os segredos a mim confiados. 6-Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. 7-Meus colegas serão meus irmãos. 8-Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. 9-Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. 10-Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza. 11-Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra.”