A medicina, assim como as demais profissões da saúde, em sendo profissões técnicas, apresentam um forte viés científico, além de um não menos intenso lado não científico (artístico, filosófico). Aqui, frente ao escrito do genial filósofo da ciência Thomas Khun, pudemos nos debruçar em analisar o lado dito científico e a fragilidade dos paradigmas, advindos deste cientificismo, que norteiam a condução das nossas técnicas MÉDICAS na condução da saúde do homem.

A Estrutura das Revoluções Científicas, uma análise:

 

O cientista se preocupa em entender o mundo e sua ordem, e daí a necessidade de se valer de uma rígida avaliação empírica dos fatos.

E dentro destas avaliações empíricas, eventualmente o cientista se depara com anomalias, que podem necessitar de uma nova abordagem.

Esta necessidade de revelar a natureza do mundo frente à sua ciência, permite ao cientista concentrar-se com segurança nos problemas de difícil compreensão (esotéricos), quando contrapostos às regras e conhecimentos existentes. E neste escopo é que ocorre um desenvolvimento gradativo científico: pequenas contribuições dos cientistas, mas sempre adicionadas ao antes definido arcabouço da ciência.

Porém, encontra-se dificuldade em estabelecer o que se considera o conceito de desenvolvimento-por-acumulação como a mola mestra da ciência. Questiona-se se a ciência não se desenvolva por invenções individuais. Muitas verdades científicas antigas, hoje, são tidas como mitos, ou seja, a verdade atual não é um acúmulo à verdade antiga, mas uma substituição àquela. Assim é difícil conceber a ciência como a se esta sempre está a se desenvolver por um processo de acréscimo. Uma nova teoria nunca é um mero incremento do que já se havia definido. Sua assimilação requer reconstruir e reavaliar teorias e fatos anteriores.

“A partir do momento que um paradigma se estabelece, não há mais a necessidade de um cientista começar, quando dos seus trabalhos, pelos primeiros princípios e justificar os conceitos por ele usados. Isto ficaria sendo necessário de se realizar apenas pelos autores de manuais.”

Revoluções científicas devem dar-se somente aos que são diretamente afetados pelo paradigma a ser quebrado. As mudanças paradigmáticas da ciência se assemelham muito às mudanças políticas, quando se estabelece que em ambas ocorre o abandono parcial de um conjunto de instituições (conceitos/teorias) em detrimento de outras.

“Porém a aquisição cumulativa de novidades é uma exceção quase inexistente à regra do desenvolvimento científico. A evolução científica NÃO TEM caráter cumulativo.”

A pesquisa normal É cumulativa, mas NÃO É cumulativa a evolução da ciência. As novidades daquela ciência só podem surgir se as técnicas, conceitos e instrumentos daquela ciência demonstrarem estar equivocados, o que levaria a questionamentos, dúvidas, o que poderia culminar com uma quebra de paradigma. Descobertas só podem ocorrer frente à quebra de paradigmas. Não há outra maneira eficaz!

As diferenças entre paradigmas sucessivos são úteis e necessárias, e requerem a redefinição da ciência correspondente. Problemas científicos antigos são descartados, reformulados, ou rotulados como pseudociência.

Guiados por novos paradigmas, cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em nova direção. Aquilo que antes, no mundo do cientista, era “x”, agora é “y”. Daí, em ciência, algo como um paradigma é fundamental à percepção uniforme. Quebrado um paradigma, os cientistas passam a “viver em um mundo diferente”, onde o antigo “x” é o novo “y”.

A ciência que surge após uma revolução científica inclui muitas das manipulações realizadas com os mesmos instrumentos e descritas empregadas pela ciência pré revolução. Os manuais científicos se referem apenas àquelas partes dos antigos cientistas (referentes à história da ciência e que a executavam frente aos paradigmas desta ciência relativos às suas épocas) somente se estes auxiliam na compreensão e na solução dos problemas pertinentes ao novo paradigma existente nestes manuais. E é devido a este fato de ter-se que reescrever os manuais frente aos novos paradigmas, a ciência aparece como cumulativa.

Os manuais que perpetuam a ciência são reescritos frente a uma mudança de paradigmas, dissimulando a própria revolução que o produziu. Estes manuais fornecem uma substituição àquilo que eliminaram. Uma vez que ao se esquecer dos “heróis do passado”, os cientistas estão esquecendo (ou no máximo revisando) seus trabalhos, isto também contribui a fazer crer que a história da ciência é linear e cumulativa.

Não existe, nestes manuais, uma conclusão referente ao progresso científico, mas eles se definiram como tal por haver uma estrutura essencial de evolução contínua na ciência. Como antes dito, ciência evolui e assim progride. O progresso é um atributo óbvio da ciência/tecnologia. “Um campo de estudos progride por ser uma ciência ou é uma ciência porque progride?”

Um empreendimento dito “ciência normal” deve progredir porque os membros de uma comunidade científica amadurecida trabalham a partir de um único paradigma e o resultado disto é o progresso. Os membros desta comunidade, são os únicos capazes de julgar algo pertinente a uma área da ciência de maneira inequívoca. Um grupo desta natureza deve considerar a mudança de paradigmas como um progresso.

Mas talvez o progresso científico não seja exatamente o que acreditamos ser. Apesar de haver algum progresso caracterizando o empreendimento científico, outro progresso não se faz, necessariamente, nas ciências, quando da sua aplicação. Temos que abandonar a ideia que a mudança de um paradigma levar-nos-á inexoravelmente à verdade.

O processo da ciência se caracteriza por uma compreensão cada vez mais definida e detalhada da natureza. Mas não necessariamente levará a algo. Se pudermos substituir a evolução-a-parir-do-que-sabemos por evolução-em-direção-ao-que-queremos-saber, diversas ansiedades desaparecerão no processo científico.

Teri Roberto Guérios

Bibliografia

CUPANI, A. O.; Filosofia da ciência; Florianópolis: FILOSOFIA/EAD/UFSC, 2009. 206p.

KUHN, T. S.; A estrutura das revoluções científicas; Tradução Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira, 1998, Editora Perspectiva.

 

 

 

 

Uma reflexão sobre o livro – GENEALOGIA DA MORAL – A Origem da moral, segundo a concepção pós-moderna de NIETZSCHE: uma conclusão baseada na historicidade, eliminando-se as virtudes aristotélicas, o utilitarismo de Stuart Mill e as obrigações kantianas como os geradores do “ser ético” no homem.

Na pós-modernidade, o entendimento da ética se centrara no abandono em se identificar um ponto central para se definir uma única moral, imutável. Passa-se a identificar que múltiplos grupos sociais têm diferentes moralidades.

E dentro desta nova abordagem pós-moderna, Nietzsche é tido com um dos primeiros grandes pensadores, tendo uma tese central em que a moralidade precisa ser explicada de forma a serem excluídas as vontades não-racionais. Tais racionalidades, traduzidas na forma de interesses, são, de fato para Nietzsche, os condutores das inúmeras morais de muitos povos.

Na busca de uma explicação genealógica da moral humana, Nietzsche parte de uma análise filológica da origem dos termos bom/mau(ruim) e bem/mal. E, a partir de seus estudos, descobre que o entendimento do que se chama de bom não necessariamente vem dos que praticam ações ditas do bem. Foram os ditos bons (nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento) que definiram que o que eles praticavam fossem classificados como atos bons, enquanto que os atos oriundos do povo, do populacho, seriam os atos maus. Aqui temos, pois, por Nietzsche, definida a origem da oposição bom/ruim.

O pensador ainda estabelece que o direito do poderoso, do dominador, vai tão pregressamente, que a própria linguagem, nas suas origens, se valeu do poder deste dominante na sua construção, a ponto de bom sempre estar ligado ao nobre, ao correto.

Neste escopo, o filósofo alemão coloca que os conceitos bem/mal (moral dos fracos), diferentemente de bom/mau (moral dos fortes), seria uma moral não natural, imposta pelos ineptos, que não podem lutar pelo que é bom exatamente por serem fracos. Esta moral deles emerge como uma força apoiada no conceito de “minorias oprimidas” e/ou sustentadas pela moral religiosa (no ocidente a moral judaico-cristã), propalando ser o que faz o bem e não o que é bom, o conceito a nortear a moral e a cultura de uma sociedade, bem como o caminho à felicidade individual.

Nietzsche afirma que a análise das palavras bom/mau(ruim) e bem/mal, coubera antes apenas, e de maneira parcial, aos psicólogos ingleses. Esta foi então, a única tentativa feita para elaborar uma história da moral, sendo que ditos psicólogos ingleses atrelavam-na a utilidade e, a isto, Nietzsche corrobora, mas não totalmente, erigindo daí uma crítica.

À origem do moralmente bom/ruim dar-se como que emanando do que é útil, sua crítica apoia-se em uma citação do filósofo Hebert Spencer (que Nietzsche cita no Primeiro Tratado de sua obra Genealogia da Moral) e sua teoria lógica que afirma que “bom” e “útil” são essencialmente semelhantes. O “bom” é o “útil” adaptado. “É ‘bom’ aquilo que sempre se revelou ‘útil’”. Nietzsche explica melhor seu ponto de vista crítico ao utilitarismo, colocando que quando as ações “úteis” passam a ser corriqueiras, não deixam, por isto, de serem “úteis” apenas por passarem ao plano do costumeiro: “essa utilidade foi experiência cotidiana em todas as épocas e portanto continuadamente enfatizado, firmando-se na consciência de maneira sempre mais forte. … conceito de bom como essencialmente igual a útil, conveniente, de modo que bom e ruim a humanidade teria sancionado em suas experiências inesquecidas acerca do útil/conveniente e do nocivo/inconveniente.” (Genealogia da Moral – Primeiro Tratado). Bom = Útil.

Necessário destacar ainda, sobre a conexão bom/aristocrático e mau/populacho, que afirma que o nobre, aristocrático, assim socialmente classificado, é a origem do que hoje se chama de bom. O que é bom, entende-se por espiritualmente virtuoso, eminente, honrado, superior, de uma origem nobre, bem nascido, aristocrata. Já, segundo a análise filológica de Nietzsche, o ruim, pela raiz filogenéticas do termo mau, liga-se ao inepto, mentiroso, inferior.

Portanto, o ponto de vista da utilidade é insuficiente e inaplicável quando se trata da fonte viva dos juízos de valor supremos que fixam e determinam a hierarquia bom/mau(ruim). De fato foi o sentimento e não a utilidade. Por Nietzsche: “…repito, a consciência da superioridade e da distância, o sentimento geral, fundamental e constante de uma espécie superior e dominadora, em oposição a uma espécie inferior e baixa que originou a oposição entre “bom” e “mau”.” (Genealogia da Moral – Primeiro Tratado)

A pesquisa histórica de Nietzsche sobre a origem da moral, o levou a concluir que a moral é uma ideologia baseada numa ilusão: um conjunto de conceitos explicáveis não porque é válido pela racionalidade (Kant), mas sim porque serve a diferentes interesses práticos.

 

Bibliografia:

Dall’Agnol, D, Ética, Filosofia/EaD/UFSC, 2008.

Nietzsche, F. W., Genealogia da moral: uma polêmica; tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. — São Paulo : Companhia das Letras, 2009.

 

 

Teri Roberto Guérios

 

 

Palestra: ÉTICA

INTRODUÇÃO

 

 

O Qué é FILOSOFIA

 

A palavra, explorando os radicais gregos que a originam, faz-nos entender literalmente a apalavra como amigo do conhecimento.

E tudo iniciou-se com um grego do séc. VII a.c., Tales de Mileto, que certa feita começou a se questionar de que, diferente do vigente à época onde todas as dúvidas humanas eram respondidas invocando-se um deus como causador de tal e tal fenômeno questionado, deveria haver uma causa razoável para os fenômenos do mundo (physis). Assim inicia-se a investigação através da razão, pelos fenômenos do mundo. Sócrates, posteriormente, aplica esta mesma investigação a temas humanos (o bem, o belo, etc.). E assim o conhecimento humano se dividiu em DOGMÁTICO (religioso) e FILOSÓFICO (investigação racional empírica) até o séc XVI. Aqui, Galileu, alargando o conhecimento empírico filosófico, estabeleceu a prova científica como importante a atestar um conhecimento. Surge então a ciência como a terceira via do conhecimento, o CIENTÍFICO.

O termo ÉTICA deriva do grego ethos e refere-se a hábito ou costume. Desde a mais antiga história humana existem estudos e pensamentos éticos, mas a avaliação sistemático do que seria ÉTICA, se inicia com Sócrates, e posteriormente acrescentada pelo pensamento de seu discípulo Platão e mais à frente, Aristóteles.

Na maioria das escolas filosóficas, ética e moral referem-se à mesma ideia, ou seja, ambos os termos atrelam-se uma investigação filosófica sobre a conduta boa ou má, certa ou errada.

Uma definição dos termos muito utilizada em filosofia é a que estabelece ÉTICA como ESTUDO FILOSÓFICO da MORAL.

Mas talvez a visão mais didática define os termos assim: moral seria uma questão pessoal, da esfera privada, enquanto ética teria um escopo mais institucional, ancorando-se, por exemplo, nas leis ou nos conhecidos CÓDIGOS DE ÉTICA.

Neste trabalho serão abordadas as definições gerais da ética e, estando estas definidas, citar-se-ão suas conexões com a Engenharia.

 

 

DESENVOLVIMENTO

 

Quando do estudo filosófico da Moral, a Ética é subdividida em METAÉTICA, onde, por exemplo SER ÉTICO É BUSCAR o BEM; Ética NORMATIVA, onde a) por exemplo este BEM só é eticamente atingindo sendo-se virtuoso ou b) seguindo-se as normas ou ainda c) tomando-se a atitude mais correta possível em uma situação, de modo a se promover o máximo BEM.

Assim temos as ter grandes escolas Normativas da Ética:

i) Ética das Virtudes, cujo expoente é Aristóteles;

ii) Ética Consequencialista ou Utilitarista, cujo expoente máximo é Stuart Mill;

iii) Ética Deontológica, cujo expoente é Kant.

Por fim temos a Ética APLICADA, onde, depois de devidamente depuradas, aplicam-se as definições advindas da Ética NORMATIVA.

Exemplos: a Bioética, a Ética do Meio Ambiente.

Exploraremos superficialmente, especificamente, os três representantes da Ética Normativa acima citado:

  1. Aristóteles defendia que somente em sendo virtuoso poder-se-ia ser Ético. Para entender esta Ética, temos, portanto, de entender o que torna alguém uma pessoa virtuosa. As virtudes são sabedoria, justiça, coragem e temperança. E tendo estes em seu caráter, o indivíduo é bom. Em se fazendo o bem, seremos um indivíduo ético. A Ética, agindo-se corretamente, gera como fim a felicidade.
  2. John Stuart Mill, que se inspirou e depurou o princípio inaugurado por Bentham, defendia a utilidade ou princípio da maior felicidade. Considerava que uma ação é correta se esta ação incrementa a felicidade; e a condena se a ação a diminui. Assim, sob este prisma, poder-se-ia por em teste a legitimidade das leis, das instituições públicas, das formas de governo e de suas políticas sociais e econômicas. Aqui também, o agir ética e corretamente gera a felicidade.
  3. Em Kant, o filósofo Moral mais famoso, deve-se agir por puro respeito ao dever moral como fundamento. E aqui faz-se premente se definir o que é agir conforme o dever: ter uma Vontade Boa (ou Boa Vontade) é agir conforme o dever, em Kant, pelo puro dever, onde este dever é o fundamento moral. Cumprir deveres motivado pela Vontade Boa é agir virtuosamente e, como tal, ser digno de felicidade. Em Kant, então, apenas fazendo-se o que deve ser feito é que seremos felizes.

 

Teri Roberto Guérios 

 

DESCARTES: uma tentativa de definir as CAUSAS (ou como se dá) do CONHECIMENTO

DISCURSO do MÉTODO

SEGUNDA PARTE Considerei ser necessário buscar algum método que, contendo as vantagens de outros três, estivesse desembaraçado de seus defeitos. Achei que me seriam suficientes os quatro seguintes, uma vez que tornasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los:

primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum de duvidar dele;

segundo o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las;

terceiro o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e presumindo até mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros;

quarto o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.

MEDITAÇÕES

PRIMEIRA MEDITAÇÃO – Das Coisas que se Pode Colocar em Dúvida

1- Com o amadurecimento, Descartes se apercebeu que os princípios que ele acreditava serem os norteadores de suas idéias, não poderiam ser infalíveis, e portanto eram passíveis de estarem errados.

2- Então, o autor decide não por provar a falsidade destes princípios, mas rejeitar as impressões advindas dos sentidos e que erigiram estes princípios, promovendo como única ferramenta confiável a se interpretar e conceituar o mundo a razão.

3- Aqui então, Descartes deixa estabelecido que, em tal empreitada, valer-se-á apenas da razão, relegando às impressões apreendidas pelos sentidos o julgamento da dúvida.

4- Nesta altura, Descartes começa a demonstrar que mesmo coisas apreendidas pelos sentidos e normalmente inquestionáveis, devem ser levadas ao tribunal da dúvida.

5- Cita, por exemplo, situações vívidas pessoais, onde não havia nenhum sinal capaz de diferenciar entre a vigília e o sono, de uma situação real ou de sonhos.

6- Então Descartes realiza um exercício mental onde, supondo estar dormindo, define que as coisas que fixam outras, como a imagem de uma parte de nosso corpo, por ex., são de fato uma “reprodução mental”, e se baseiam em uma imagem anteriormente conhecida real e verdadeira. Ou seja, imagens de sonhos seriam como “pinturas” ou “gravuras” de coisas reais e levanta a possibilidade do mundo real assim o ser.

7- Continua ele, mesmo que as formas corpóreas, por exemplo, fossem imaginárias, algo, sem dúvida não o seria: as definições com as quais nos apoiamos para caracterizar outras coisas e que são a natureza corpórea de algo, a extensão deste algo, sua grandeza, sua quantidade, as medidas relativas ao tempo e ao espaço.

8- Daí ele conclui que ciências não puras, como a Astronomia, a Medicina, serem afeitas à dúvida mais que as puras, tais como a Aritmética ou a Geometria.

9- Descartes declara que Deus criou tudo, mas aventa a possibilidade de, em verdade, Deus, dentro de seu poder, não ter criado nada do que o homem apreende, mas apenas dado a este homem a faculdade de se aperceber do que este Deus define que deva ser percebido.

10- Mas Descartes contrapõem esta hipótese à suprema bondade e perfeição de Deus e não considera isto como um hipótese válida, pois Ele não é enganador .

11- Tendo a certeza de que sua linha de pensamentos segue em correta direção, Descartes decide entregar-se à meditação.

12- Começa, então com o pressuposto de que existe um ser poderoso e que buscará sempre enganar o homem acerca de suas impressões a quem ele nomina Gênio Maligno. Este ser valer-se-á da criação de ilusões acerca do mundo na tentativa de captar, com estas ilusões, a credulidade dos homens. Este Gênio Maligno será o criador, gerente e manipulador de todas as sensações e pensamentos do homem.

13- E este homem sentir-se-á muito mais à vontade sob os desmandes deste Gênio Maligno que sob seu próprio comando, quiçá por preguiça.

MEDITAÇÃO SEGUNDA – Da Natureza do Espírito Humano; E de como Ele é Mais Fácil de Conhecer do que o Corpo

1- Inicia esta parte reforçando seu intuito de continuar a linha de raciocínio anterior.

2- Sua aposta em seu raciocínio mostra-se cheia de esperança.

3- Na sua suposição, então, como erigida no fim da Primeira Meditação, todas as coisas são falsamente percebidas pelo homem, e tudo é uma ficção do espírito deste homem. Então o que poderá ser tido como verdadeiro?

4- O homem questiona se é real, já tendo Descartes definido que ele não tem corpo e nem sentidos. No entanto, a partir desta dúvida, o homem se define como existente pois, se ele pôde pensar nas dúvidas antes colocadas, é porque existe o ser que pensa e aqui este ser é nosso homem. Então, mesmo que todas as impressões do homem sejam apenas fruto da criação do Gênio Maligno, sua única certeza é que existe, não é um fruto deste Gênio Maligno. É capaz de pensar na sua existência.

5- O homem sabe que é mas não sabe, ainda, o que é.

6- Por definição de corpo, inicia dizendo que é algo que se limita a uma figura, que ocupa lugar no espaço, que pode ser sentido pelo tato, movimentado.

7- Reforça a malícia e o ardil do Gênio Maligno. E devido a isto questiona-se se ele, o homem, possui algum predicado corpóreo. Devido à dificuldade de se definir algo referente ao corpo, Descartes passa a investigar a alma. Define que, sendo o pensar um atributo da alma, e este pensar não pode ser separado do ser que pensa, e este ser, para pensar tem que existir, define: Eu Sou, Eu Existo. Portanto, é seguro de que é alguma coisa.

8- Reforça aqui que a certeza maior dele é que sabe que é.

9- Sabe que é uma coisa que pensa. E define que se pode e deve duvidar, mas nunca recorrer à imaginação, pois tudo que advém desta é eliminado pela ferramenta inicialmente usada, qual seja, a dúvida.

10- Mostra o porque para ele, Descartes, é mais fácil se conhecer as coisas espirituais que as apreendidas pelos sentidos: seu espírito tende a investigar além do que é óbvio, além do que é apenas captado pelos sentidos.

11- Inicia, para ilustrar o acima dito, considerando um pedaço sólido de cera.

12- Ao derretê-la, a forma, o odor, a consistência mudam, mas não seu volume. Houve uma mudança no corpo, mas continuaremos em com um volume de cera.

13- A única relação da porção inicial de cera com porção derretida e disforme, dá-se através do espírito. Ele tem o atributo de fornecer ao intelecto as características iniciais e finais do corpo antes sólido e agora derretido.

14- Permanece, portanto, a idéia de cera. E esta conclusão só é possível de se apreender pelo espírito.

15- Reconhece que, até aqui, definiu que o objeto em questão era cera pois, ao percebê-lo com seus sentidos, pôde assim classificá-lo. E disso não duvidaria. Mas a percepção dos sentidos só é possível sob a anterior compreensão do reconhecimento a partir do pensamento. Ou seja, da detecção, a partir da razão, de uma idéia clara acerca do ser a ser reconhecido.

16- Descartes afirma que se ele pode conceber de maneira nítida que um pedaço de cera existe, usando a mesma razão e pela mesma via pode também definir sua própria existência. Se segue: “se eu penso a partir do espírito, mas penso em coisas que toco ou vejo, estes atos reforçam o meu existir, pois necessita-se existir para agir”.

17- Disto, apreende-se que o espírito existe, o pensamento é fruto deste espírito, e a razão, que nele habita, será por ele ativada. Capta-se, então, que este espírito existe.

18- Concluindo, Descartes mostra que corpos só podem ser reconhecidos, como antes demonstrado, pela razão e não exclusivamente pelos sentidos. Então, como o ato de conhecer verdadeiramente algo dar-se-á pela razão e nunca pelos sentidos, o espírito é pois pronta e facilmente reconhecido.

 

Teri Roberto Guérios

TRUMP

 

  1. i) 2007 – O MUNDO É “UM” PLANO

Na leitura do livro “O Mundo é Plano”, de Thomas L. Friedman, escritor norte-americano, percebe-se a exaltação da globalização do novo milênio, gerada por fatores como o avanço da comunicação em tempo real, as trocas de conceitos culturais, sociais e econômicos. Pelas observações do autor, isto nos leva a ponto de estarmos vivendo numa era onde a onda da globalização atigiu tal patamar que, somado à velocidade das trocas comerciais e culturais, acabam por derrubar barreiras nacionais e sociais e transformam o mundo numa aldeia global.

Uma aldeia monocultural, macroeconômica, de tal magnitude e onde o acesso a tudo é tão igual que parece estarmos, todos os mais de sete bilhões de indivíduos do planeta, vivendo num mesmo plano geográfico.

O autor também exalta a queda dos valores culturais e individuais em prol de uma suposta economia global (O Mercado) que, junto com ela, arrasta para a globalização os desejos e os anseios de todos os indivíduos. A exaltação do capitalismo, do neoliberalismo ocidental, do pós-modenismo e da democracia sobre tudo e todos.

Nas entrelinhas do livro se percebe uma mensagem subliminar: neste dito regime globalizado sempre haverá comandantes e comandados. Brancos anglo-saxônicos participam da globalização fornecendo tecnologia e armas produtivas a povos que, para dela participarem, produzirão o “serviço sujo e barato” e trabalharão por salários pífios, sem se darem conta que esta posição, almejada de status no mundo globalizado, custa o sacrifício de sua base cultural, social e até intelectual.

O autor exalta esta realidade como boa, uma via normal e fruto de toda a construção ocidental da liberdade oriunda do século passado. Um caminho inexorável da humanidade quando em busca de uma “globalização”.

Entretanto, ouso divergir da “mensagem” do autor, reputando à obra pobreza ímpar, tanto filosófica e sociológica como antroplogicamente falando. Sobretudo na exaltação da globalização e do Mercado, ambos culturalmente desumanizadores, do mundo do século XXI.

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Já na leitura do livro “A Arte de Reduzir as Cabeças”, do filósofo francês Dany-Robert Dufour, há uma abordagem muito mais realista sobre esses pontos, e nas suas origens. Não trata do comércio de mercadorias e cultura, e sim das bases sobre as quais este comércio se constrói, e, principalmente, sobre ou sob o que isto ocorre.

A queda (ou enfraquecimento) de todos os ídolos modernos, como as fronteiras do estado-nação, os ídolos religiosos, politicos, sociais e culturais, ocorrida no pós Guerra, a queda do padrão ouro como indexador da moeda (quando as reservas de uma nação indexavam o valor de sua moeda, sendo substituídas por seu PIB – Produto Interno Bruto), como apontados neste livro, propiciou a “construção” de um novo tipo humano, aquele que tenha como ídolo (sempre estes tais “ídolos”, essenciais na personalidade humana) o Mercado e suas trocas que possam, mesmo que momentaneamente, preencher a lacuna deixada por um ídolo (ou grande sujeito) real.

E sugere que a revolução pós moderna, criou um conceito pedagógico, ou seja, referente à formação do sujeito, que se apóia no enfraquecimento da transmissão cultural, calcando a escolha do cidadão na “livre escolha”. Seria como se (segundo o autor cita) um indivíduo recém chegado ao mundo não estivesse sujeito às regras da cultura onde nasceu, mas às suas próprias regras por si mesmo estabelecidas. Daí, feita por alguns, a apologia da supressão total dos valores da sociedade (e junto com ele do sujeito crítico necessário à vida em coletividade social), deixando aberta a porta para a invasão dos desejos primitivos estimulados pelo Mercado, pelo consume, pela massificação cultural, pelo capital.

Realmente, desde a queda do muro de Berlim (e seu significado histórico), desde que o mito “Deus” perdeu seu status de condutor moral (assinalado por Nietzsche como uma perda importante e negativa dos ídolos que formam o ser humano), uma lacuna se abriu, ainda mais, e alargada pelo entorpecimento estimulado pelo pós modernismo, oriundo das novas idéias pedagógicas e midiáticas. Estamos num tempo em que a transmissão da disciplina advinda do costume social, deu lugar a pouca ou nenhuma orientação de conduta social/coletiva a este novo indivíduo (a criança). Encarregou-se esta função à televisão e à internet onde a possibilidade de se transmitir idéias retira totalmente do receptor da ideia a imaginação, e amortece seu censo crítico, já que a “cena” que poderia ser imaginada por este, já vem pronta a ele e construída na imaginação, permeada pela linguagem, de outrém. E aqui o Mercado encontra terreno fértil a se proliferar e promover seus interesses..

Esta lacuna pode e foi facilmente ocupada pelo conceito menos difícil e mais facilmente assimilável e explorador dos mais primitivos sentimentos humanos vinculados maiormente em se possuir algo material: o Mercado.

Frente às duas obras, observando que a mensagem do livro “A Arte de Reduzir as Cabeças” tem uma conotação mais sobrepujante e humanizada à do primeiro livro aqui comentado.

Penso que uma pequena mudança no título original revestiria com mais propriedade todo esse contexto da obra de Friedmann: O Mundo é UM Plano (um plano social, pós-moderno, capitalista, neo liberal na busca de reduzir as cabeças).

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  1. ii) 2017 – TRUMP UM ESQUERDISTA??!!

Não sou partidário de Donald Trump. Não sou direita nem esquerda. Não sou capitalista nem comunista. Apenas observo e gosto de analisar os fatos da atualidade.

E hoje, Donald Trump é constantemente acusado pelos comentaristas políticos e a mídia em geral, de ser um indivíduo fascista, de extrema-direita.

Eu, particularmente, não me identifico com muitas das políticas defendidas por Trump.

Mas, assim como advogado pelo próprio Marx, ele se opõe frontalmente ao achaque que o Mercado, agora globalizado, causa à sua gente. Se coloca contrário à exploração típicamente capitalista do homem que, como mercadoria e sem respeito a nenhuma fronteira, identidade ou cultura nacional, escolhe produzir capital onde os lucros lhe sejam mais favoráveis.

E com este viés trumpiano eu concordo abertamente.

E como ficam os auto-intitulados “marxistas” (entre aspas pois um verdadeiro estudioso da filosofia de Marx é intitulado um marxiano)? Como podem se colocar os intelectuais de esquerda, frente a esta postura? Sim, pois Trump age (provavelmente sem o saber) como um leitor de uma parte de O Capital de Marx, defendendo o operário, o povo norte-americanos e suas fronteiras nacionais. Opõe-se ferozmente à globalização e às mazelas locais que esta traz consigo.

Como agora, o Sr. Thomas L. Friedman, um estadunidense, entende tudo o que defendeu? Considera Trump um fascista, extrema-direita? Provavelmente. Mas e este lado do presidente que apontei acima?

E, enquanto isto, o Sr. Dany-Robert Dufour (inúmeras vezes taxado de esquerdista) nunca esteve tão atual em suas palavras. E apoiado, em parte, por um indivíduo nominado como a antítese da esquerda, o Sr. Donald Trump.

De tal ordem, que as palavras do livro A Arte de Reduzir as Cabeças soam como uma profética análise filosófica do mundo que se apresentaria quinze anos depois de terem sido escritas.

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iii) UM POUCO DE MARX PARA REFRESCAR (muito sucintamente) – Uma rápida análise da dialética marxiana de O Capital

Marx especula em como o trabalho pode criar um valor às mercadorias. Na busca desta definição, afirma que todo trabalho é dispêndio de força humana em sentido fisiológico (trabalho abstrato) e, devido a essa propriedade, presente a qualquer trabalho, se gera o valor das mercadorias.

À frente, ainda especulando sobre o que significa o valor dado às mercadorias, Marx afirma que tal valor possui objetividade apenas na medida em que estas são expressões do trabalho humano. Este trabalho humano se acumula na produção destas mercadorias e, através da quantificação do trabalho é que se estabelece um valor à mercadoria.

Assim, nesta medida de trabalho para a produção de determinada mercadoria é que se apoiavam as regras de quando o comércio se restringia ao escambo. Por ex: duas braças de linho podiam ser permutados por um casaco.

Marx afirma à frente:

“Porém, não está dada de modo algum a proporção em que casacos e linho são permutáveis – o valor de uso se torna a forma de manifestação de seu contrário, do valor.”[1]

E mais:

“As mercadorias não possuem qualquer forma de valor relativa geral na qual possam se equiparar como valores e se comparar umas com as outras como grandezas de valor. Na mesma medida em que se opera a metamorfose dos produtos do trabalho em mercadorias, opera-se também a metamorfose da mercadoria em dinheiro.”[2]

Emerge então, no pensamento marxiano, a definição de que, com a dificuldade de mensurar-se o exato valor de cada produto a fim de um escambo justo, surgiu a ideia de se escolher um único produto que tivesse o poder universal de se equivaler a qualquer outro, e este produto foi o ouro, posteriormente substituído pelo dinheiro.

É neste momento que se inicia uma nova realidade no comércio humano: este comércio, que antes era apenas de mercadorias, passaria a ser também de dinheiro. O dinheiro passa a ser mercadoria como as que ele deve lastrear.

O lucro advindo deste dinheiro é que Marx designa de capital. Ou seja, nesta fase não haveria mais a simples troca de mercadoria por seu equivalente em dinheiro, e de novo deste dinheiro para outra mercadoria equivalente. Os que procuram ganhos de capital são os capitalistas. E como os meios de produção de todas as matérias se encontravam na mão dos grande burgueses, infere-se que todos os capitalistas são grandes burgueses.

Nesta altura do pensamento marxiano, o conceito de mais-valia faz-se de suma importância se definir: todo o ganho de capital advindo do dinheiro; por exemplo, se um burguês dono de uma indústria paga $100 para um funcionário que produz $150 por mês, temos $50 de capital (mais-valia); o mesmo ocorrerá quando a negociação se der com um burguês que detém $100 e empresta este valor por um período, resgatando, $120, com 20 de capital (aqui mais-valia na forma de juros). Em ambos os casos temos ganho de capital auferido a partir do dinheiro. No primeiro caso, de forma indireta, pois o burguês tem dinheiro para ser dono da fábrica onde o proletário trabalha por $100, e, no segundo, o burguês tem dinheiro (os mesmos $100) para “comprar” $120, os 100 iniciais mais 20 de lucro.

Marx considera a sociedade burguesa como herdeira direta da classe dominante feudal, tendo os grandes burgueses assumido o papel dos senhores feudais. E esta nova sociedade (grande e pequenos burgueses), antes de eliminar a oposição de classes feudais, apenas acrescentou novas classes, novas condições de opressão e de luta às já antes existentes. Neste raciocínio marxista, se a burguesia substituiu a nobreza feudal, o proletariado substituirá a burguesia. E o caminho a isto seria se apoderar do aparelho do Estado.

Marx propõe o fim do jugo do homem sobre o homem, o fim da propriedade privada, gerando uma verdade emancipatória sobre todos os homens, proletários e burgueses. Não haveria mais classes sociais, propriedades privadas, estabelecendo-se assim uma nova sociedade.

Bibliografia

ASSMAN, Selvino José; DUTRA, Delamar José Volpato; HEBECHE, Luiz; Filosofia Política IV, FILOS. EAD/UFSC, 2009.

MARX, Karl; O capital – Livro I – Editora Boitempo

PINZANI, Alessandro; Filosofia Política III, FILOS. /EAD/UFSC, 2ed.,2015.

[1] O Capital, seção I, cap 1, tomo 3

[2] O Capital, seção I, cap 2

 

Teri Roberto Guérios