DESCARTES: uma tentativa de definir as CAUSAS (ou como se dá) do CONHECIMENTO

DISCURSO do MÉTODO

SEGUNDA PARTE Considerei ser necessário buscar algum método que, contendo as vantagens de outros três, estivesse desembaraçado de seus defeitos. Achei que me seriam suficientes os quatro seguintes, uma vez que tornasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los:

primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum de duvidar dele;

segundo o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las;

terceiro o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e presumindo até mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros;

quarto o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.

MEDITAÇÕES

PRIMEIRA MEDITAÇÃO – Das Coisas que se Pode Colocar em Dúvida

1- Com o amadurecimento, Descartes se apercebeu que os princípios que ele acreditava serem os norteadores de suas idéias, não poderiam ser infalíveis, e portanto eram passíveis de estarem errados.

2- Então, o autor decide não por provar a falsidade destes princípios, mas rejeitar as impressões advindas dos sentidos e que erigiram estes princípios, promovendo como única ferramenta confiável a se interpretar e conceituar o mundo a razão.

3- Aqui então, Descartes deixa estabelecido que, em tal empreitada, valer-se-á apenas da razão, relegando às impressões apreendidas pelos sentidos o julgamento da dúvida.

4- Nesta altura, Descartes começa a demonstrar que mesmo coisas apreendidas pelos sentidos e normalmente inquestionáveis, devem ser levadas ao tribunal da dúvida.

5- Cita, por exemplo, situações vívidas pessoais, onde não havia nenhum sinal capaz de diferenciar entre a vigília e o sono, de uma situação real ou de sonhos.

6- Então Descartes realiza um exercício mental onde, supondo estar dormindo, define que as coisas que fixam outras, como a imagem de uma parte de nosso corpo, por ex., são de fato uma “reprodução mental”, e se baseiam em uma imagem anteriormente conhecida real e verdadeira. Ou seja, imagens de sonhos seriam como “pinturas” ou “gravuras” de coisas reais e levanta a possibilidade do mundo real assim o ser.

7- Continua ele, mesmo que as formas corpóreas, por exemplo, fossem imaginárias, algo, sem dúvida não o seria: as definições com as quais nos apoiamos para caracterizar outras coisas e que são a natureza corpórea de algo, a extensão deste algo, sua grandeza, sua quantidade, as medidas relativas ao tempo e ao espaço.

8- Daí ele conclui que ciências não puras, como a Astronomia, a Medicina, serem afeitas à dúvida mais que as puras, tais como a Aritmética ou a Geometria.

9- Descartes declara que Deus criou tudo, mas aventa a possibilidade de, em verdade, Deus, dentro de seu poder, não ter criado nada do que o homem apreende, mas apenas dado a este homem a faculdade de se aperceber do que este Deus define que deva ser percebido.

10- Mas Descartes contrapõem esta hipótese à suprema bondade e perfeição de Deus e não considera isto como um hipótese válida, pois Ele não é enganador .

11- Tendo a certeza de que sua linha de pensamentos segue em correta direção, Descartes decide entregar-se à meditação.

12- Começa, então com o pressuposto de que existe um ser poderoso e que buscará sempre enganar o homem acerca de suas impressões a quem ele nomina Gênio Maligno. Este ser valer-se-á da criação de ilusões acerca do mundo na tentativa de captar, com estas ilusões, a credulidade dos homens. Este Gênio Maligno será o criador, gerente e manipulador de todas as sensações e pensamentos do homem.

13- E este homem sentir-se-á muito mais à vontade sob os desmandes deste Gênio Maligno que sob seu próprio comando, quiçá por preguiça.

MEDITAÇÃO SEGUNDA – Da Natureza do Espírito Humano; E de como Ele é Mais Fácil de Conhecer do que o Corpo

1- Inicia esta parte reforçando seu intuito de continuar a linha de raciocínio anterior.

2- Sua aposta em seu raciocínio mostra-se cheia de esperança.

3- Na sua suposição, então, como erigida no fim da Primeira Meditação, todas as coisas são falsamente percebidas pelo homem, e tudo é uma ficção do espírito deste homem. Então o que poderá ser tido como verdadeiro?

4- O homem questiona se é real, já tendo Descartes definido que ele não tem corpo e nem sentidos. No entanto, a partir desta dúvida, o homem se define como existente pois, se ele pôde pensar nas dúvidas antes colocadas, é porque existe o ser que pensa e aqui este ser é nosso homem. Então, mesmo que todas as impressões do homem sejam apenas fruto da criação do Gênio Maligno, sua única certeza é que existe, não é um fruto deste Gênio Maligno. É capaz de pensar na sua existência.

5- O homem sabe que é mas não sabe, ainda, o que é.

6- Por definição de corpo, inicia dizendo que é algo que se limita a uma figura, que ocupa lugar no espaço, que pode ser sentido pelo tato, movimentado.

7- Reforça a malícia e o ardil do Gênio Maligno. E devido a isto questiona-se se ele, o homem, possui algum predicado corpóreo. Devido à dificuldade de se definir algo referente ao corpo, Descartes passa a investigar a alma. Define que, sendo o pensar um atributo da alma, e este pensar não pode ser separado do ser que pensa, e este ser, para pensar tem que existir, define: Eu Sou, Eu Existo. Portanto, é seguro de que é alguma coisa.

8- Reforça aqui que a certeza maior dele é que sabe que é.

9- Sabe que é uma coisa que pensa. E define que se pode e deve duvidar, mas nunca recorrer à imaginação, pois tudo que advém desta é eliminado pela ferramenta inicialmente usada, qual seja, a dúvida.

10- Mostra o porque para ele, Descartes, é mais fácil se conhecer as coisas espirituais que as apreendidas pelos sentidos: seu espírito tende a investigar além do que é óbvio, além do que é apenas captado pelos sentidos.

11- Inicia, para ilustrar o acima dito, considerando um pedaço sólido de cera.

12- Ao derretê-la, a forma, o odor, a consistência mudam, mas não seu volume. Houve uma mudança no corpo, mas continuaremos em com um volume de cera.

13- A única relação da porção inicial de cera com porção derretida e disforme, dá-se através do espírito. Ele tem o atributo de fornecer ao intelecto as características iniciais e finais do corpo antes sólido e agora derretido.

14- Permanece, portanto, a idéia de cera. E esta conclusão só é possível de se apreender pelo espírito.

15- Reconhece que, até aqui, definiu que o objeto em questão era cera pois, ao percebê-lo com seus sentidos, pôde assim classificá-lo. E disso não duvidaria. Mas a percepção dos sentidos só é possível sob a anterior compreensão do reconhecimento a partir do pensamento. Ou seja, da detecção, a partir da razão, de uma idéia clara acerca do ser a ser reconhecido.

16- Descartes afirma que se ele pode conceber de maneira nítida que um pedaço de cera existe, usando a mesma razão e pela mesma via pode também definir sua própria existência. Se segue: “se eu penso a partir do espírito, mas penso em coisas que toco ou vejo, estes atos reforçam o meu existir, pois necessita-se existir para agir”.

17- Disto, apreende-se que o espírito existe, o pensamento é fruto deste espírito, e a razão, que nele habita, será por ele ativada. Capta-se, então, que este espírito existe.

18- Concluindo, Descartes mostra que corpos só podem ser reconhecidos, como antes demonstrado, pela razão e não exclusivamente pelos sentidos. Então, como o ato de conhecer verdadeiramente algo dar-se-á pela razão e nunca pelos sentidos, o espírito é pois pronta e facilmente reconhecido.