TRUMP

 

  1. i) 2007 – O MUNDO É “UM” PLANO

Na leitura do livro “O Mundo é Plano”, de Thomas L. Friedman, escritor norte-americano, percebe-se a exaltação da globalização do novo milênio, gerada por fatores como o avanço da comunicação em tempo real, as trocas de conceitos culturais, sociais e econômicos. Pelas observações do autor, isto nos leva a ponto de estarmos vivendo numa era onde a onda da globalização atigiu tal patamar que, somado à velocidade das trocas comerciais e culturais, acabam por derrubar barreiras nacionais e sociais e transformam o mundo numa aldeia global.

Uma aldeia monocultural, macroeconômica, de tal magnitude e onde o acesso a tudo é tão igual que parece estarmos, todos os mais de sete bilhões de indivíduos do planeta, vivendo num mesmo plano geográfico.

O autor também exalta a queda dos valores culturais e individuais em prol de uma suposta economia global (O Mercado) que, junto com ela, arrasta para a globalização os desejos e os anseios de todos os indivíduos. A exaltação do capitalismo, do neoliberalismo ocidental, do pós-modenismo e da democracia sobre tudo e todos.

Nas entrelinhas do livro se percebe uma mensagem subliminar: neste dito regime globalizado sempre haverá comandantes e comandados. Brancos anglo-saxônicos participam da globalização fornecendo tecnologia e armas produtivas a povos que, para dela participarem, produzirão o “serviço sujo e barato” e trabalharão por salários pífios, sem se darem conta que esta posição, almejada de status no mundo globalizado, custa o sacrifício de sua base cultural, social e até intelectual.

O autor exalta esta realidade como boa, uma via normal e fruto de toda a construção ocidental da liberdade oriunda do século passado. Um caminho inexorável da humanidade quando em busca de uma “globalização”.

Entretanto, ouso divergir da “mensagem” do autor, reputando à obra pobreza ímpar, tanto filosófica e sociológica como antroplogicamente falando. Sobretudo na exaltação da globalização e do Mercado, ambos culturalmente desumanizadores, do mundo do século XXI.

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Já na leitura do livro “A Arte de Reduzir as Cabeças”, do filósofo francês Dany-Robert Dufour, há uma abordagem muito mais realista sobre esses pontos, e nas suas origens. Não trata do comércio de mercadorias e cultura, e sim das bases sobre as quais este comércio se constrói, e, principalmente, sobre ou sob o que isto ocorre.

A queda (ou enfraquecimento) de todos os ídolos modernos, como as fronteiras do estado-nação, os ídolos religiosos, politicos, sociais e culturais, ocorrida no pós Guerra, a queda do padrão ouro como indexador da moeda (quando as reservas de uma nação indexavam o valor de sua moeda, sendo substituídas por seu PIB – Produto Interno Bruto), como apontados neste livro, propiciou a “construção” de um novo tipo humano, aquele que tenha como ídolo (sempre estes tais “ídolos”, essenciais na personalidade humana) o Mercado e suas trocas que possam, mesmo que momentaneamente, preencher a lacuna deixada por um ídolo (ou grande sujeito) real.

E sugere que a revolução pós moderna, criou um conceito pedagógico, ou seja, referente à formação do sujeito, que se apóia no enfraquecimento da transmissão cultural, calcando a escolha do cidadão na “livre escolha”. Seria como se (segundo o autor cita) um indivíduo recém chegado ao mundo não estivesse sujeito às regras da cultura onde nasceu, mas às suas próprias regras por si mesmo estabelecidas. Daí, feita por alguns, a apologia da supressão total dos valores da sociedade (e junto com ele do sujeito crítico necessário à vida em coletividade social), deixando aberta a porta para a invasão dos desejos primitivos estimulados pelo Mercado, pelo consume, pela massificação cultural, pelo capital.

Realmente, desde a queda do muro de Berlim (e seu significado histórico), desde que o mito “Deus” perdeu seu status de condutor moral (assinalado por Nietzsche como uma perda importante e negativa dos ídolos que formam o ser humano), uma lacuna se abriu, ainda mais, e alargada pelo entorpecimento estimulado pelo pós modernismo, oriundo das novas idéias pedagógicas e midiáticas. Estamos num tempo em que a transmissão da disciplina advinda do costume social, deu lugar a pouca ou nenhuma orientação de conduta social/coletiva a este novo indivíduo (a criança). Encarregou-se esta função à televisão e à internet onde a possibilidade de se transmitir idéias retira totalmente do receptor da ideia a imaginação, e amortece seu censo crítico, já que a “cena” que poderia ser imaginada por este, já vem pronta a ele e construída na imaginação, permeada pela linguagem, de outrém. E aqui o Mercado encontra terreno fértil a se proliferar e promover seus interesses..

Esta lacuna pode e foi facilmente ocupada pelo conceito menos difícil e mais facilmente assimilável e explorador dos mais primitivos sentimentos humanos vinculados maiormente em se possuir algo material: o Mercado.

Frente às duas obras, observando que a mensagem do livro “A Arte de Reduzir as Cabeças” tem uma conotação mais sobrepujante e humanizada à do primeiro livro aqui comentado.

Penso que uma pequena mudança no título original revestiria com mais propriedade todo esse contexto da obra de Friedmann: O Mundo é UM Plano (um plano social, pós-moderno, capitalista, neo liberal na busca de reduzir as cabeças).

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  1. ii) 2017 – TRUMP UM ESQUERDISTA??!!

Não sou partidário de Donald Trump. Não sou direita nem esquerda. Não sou capitalista nem comunista. Apenas observo e gosto de analisar os fatos da atualidade.

E hoje, Donald Trump é constantemente acusado pelos comentaristas políticos e a mídia em geral, de ser um indivíduo fascista, de extrema-direita.

Eu, particularmente, não me identifico com muitas das políticas defendidas por Trump.

Mas, assim como advogado pelo próprio Marx, ele se opõe frontalmente ao achaque que o Mercado, agora globalizado, causa à sua gente. Se coloca contrário à exploração típicamente capitalista do homem que, como mercadoria e sem respeito a nenhuma fronteira, identidade ou cultura nacional, escolhe produzir capital onde os lucros lhe sejam mais favoráveis.

E com este viés trumpiano eu concordo abertamente.

E como ficam os auto-intitulados “marxistas” (entre aspas pois um verdadeiro estudioso da filosofia de Marx é intitulado um marxiano)? Como podem se colocar os intelectuais de esquerda, frente a esta postura? Sim, pois Trump age (provavelmente sem o saber) como um leitor de uma parte de O Capital de Marx, defendendo o operário, o povo norte-americanos e suas fronteiras nacionais. Opõe-se ferozmente à globalização e às mazelas locais que esta traz consigo.

Como agora, o Sr. Thomas L. Friedman, um estadunidense, entende tudo o que defendeu? Considera Trump um fascista, extrema-direita? Provavelmente. Mas e este lado do presidente que apontei acima?

E, enquanto isto, o Sr. Dany-Robert Dufour (inúmeras vezes taxado de esquerdista) nunca esteve tão atual em suas palavras. E apoiado, em parte, por um indivíduo nominado como a antítese da esquerda, o Sr. Donald Trump.

De tal ordem, que as palavras do livro A Arte de Reduzir as Cabeças soam como uma profética análise filosófica do mundo que se apresentaria quinze anos depois de terem sido escritas.

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iii) UM POUCO DE MARX PARA REFRESCAR (muito sucintamente) – Uma rápida análise da dialética marxiana de O Capital

Marx especula em como o trabalho pode criar um valor às mercadorias. Na busca desta definição, afirma que todo trabalho é dispêndio de força humana em sentido fisiológico (trabalho abstrato) e, devido a essa propriedade, presente a qualquer trabalho, se gera o valor das mercadorias.

À frente, ainda especulando sobre o que significa o valor dado às mercadorias, Marx afirma que tal valor possui objetividade apenas na medida em que estas são expressões do trabalho humano. Este trabalho humano se acumula na produção destas mercadorias e, através da quantificação do trabalho é que se estabelece um valor à mercadoria.

Assim, nesta medida de trabalho para a produção de determinada mercadoria é que se apoiavam as regras de quando o comércio se restringia ao escambo. Por ex: duas braças de linho podiam ser permutados por um casaco.

Marx afirma à frente:

“Porém, não está dada de modo algum a proporção em que casacos e linho são permutáveis – o valor de uso se torna a forma de manifestação de seu contrário, do valor.”[1]

E mais:

“As mercadorias não possuem qualquer forma de valor relativa geral na qual possam se equiparar como valores e se comparar umas com as outras como grandezas de valor. Na mesma medida em que se opera a metamorfose dos produtos do trabalho em mercadorias, opera-se também a metamorfose da mercadoria em dinheiro.”[2]

Emerge então, no pensamento marxiano, a definição de que, com a dificuldade de mensurar-se o exato valor de cada produto a fim de um escambo justo, surgiu a ideia de se escolher um único produto que tivesse o poder universal de se equivaler a qualquer outro, e este produto foi o ouro, posteriormente substituído pelo dinheiro.

É neste momento que se inicia uma nova realidade no comércio humano: este comércio, que antes era apenas de mercadorias, passaria a ser também de dinheiro. O dinheiro passa a ser mercadoria como as que ele deve lastrear.

O lucro advindo deste dinheiro é que Marx designa de capital. Ou seja, nesta fase não haveria mais a simples troca de mercadoria por seu equivalente em dinheiro, e de novo deste dinheiro para outra mercadoria equivalente. Os que procuram ganhos de capital são os capitalistas. E como os meios de produção de todas as matérias se encontravam na mão dos grande burgueses, infere-se que todos os capitalistas são grandes burgueses.

Nesta altura do pensamento marxiano, o conceito de mais-valia faz-se de suma importância se definir: todo o ganho de capital advindo do dinheiro; por exemplo, se um burguês dono de uma indústria paga $100 para um funcionário que produz $150 por mês, temos $50 de capital (mais-valia); o mesmo ocorrerá quando a negociação se der com um burguês que detém $100 e empresta este valor por um período, resgatando, $120, com 20 de capital (aqui mais-valia na forma de juros). Em ambos os casos temos ganho de capital auferido a partir do dinheiro. No primeiro caso, de forma indireta, pois o burguês tem dinheiro para ser dono da fábrica onde o proletário trabalha por $100, e, no segundo, o burguês tem dinheiro (os mesmos $100) para “comprar” $120, os 100 iniciais mais 20 de lucro.

Marx considera a sociedade burguesa como herdeira direta da classe dominante feudal, tendo os grandes burgueses assumido o papel dos senhores feudais. E esta nova sociedade (grande e pequenos burgueses), antes de eliminar a oposição de classes feudais, apenas acrescentou novas classes, novas condições de opressão e de luta às já antes existentes. Neste raciocínio marxista, se a burguesia substituiu a nobreza feudal, o proletariado substituirá a burguesia. E o caminho a isto seria se apoderar do aparelho do Estado.

Marx propõe o fim do jugo do homem sobre o homem, o fim da propriedade privada, gerando uma verdade emancipatória sobre todos os homens, proletários e burgueses. Não haveria mais classes sociais, propriedades privadas, estabelecendo-se assim uma nova sociedade.

Bibliografia

ASSMAN, Selvino José; DUTRA, Delamar José Volpato; HEBECHE, Luiz; Filosofia Política IV, FILOS. EAD/UFSC, 2009.

MARX, Karl; O capital – Livro I – Editora Boitempo

PINZANI, Alessandro; Filosofia Política III, FILOS. /EAD/UFSC, 2ed.,2015.

[1] O Capital, seção I, cap 1, tomo 3

[2] O Capital, seção I, cap 2