ENTENDER E MENSURAR A DOR DO OUTRO: INSTIUIR – Apresentado no IV CONGRESSO SUL BRASILEIRO DE ESTUDOS da DOR

Wittgenstein, apesar de a ter escrito Investigações Filosóficas integralmente, não viveu para ver a montagem e forma final do livro, vindo sua publicação a ocorrer de forma póstuma, em 1953.

Neste manuscrito, inicia-se, a partir do parágrafo 111, uma abordagem filosófica de vários temas, mas sempre enfocando-os por detrás da lente da filosofia analítica da linguagem. Por Wittgenstein:

“Os problemas que nascem de uma má interpretação de nossas formas de linguísticas têm caráter de profundidade. São inquietações profundas; estão enraizados tão profundamente em nós quanto as formas de nossa linguagem, e sua forma é tão importante quanto nossa linguagem – Pergunte-nos: por que sentimos uma brincadeira gramatical como profunda? (E isto, com efeito, é a profundidade filosófica).”

 

Tudo, material ou imaterial, é linguagem. Na Obra Investigações Filosóficas, no parágrafo, 293 lê-se:

“Quando digo a mim mesmo que sei o que significa a palavra ‘dor’ apenas a partir de um caso específico – não devo também dizer isto de outros? E como posso generalizer um caso de modo tão irresponsável? Ora, alguém me diz, a seu respeito, saber apenas a partir de seu próprio caso o que sejam dores! – Suponhamos que cada um tivesse uma caixa e que dentro dela houvesse algo que chamamos de ‘besouro’. Ninguém pode olhar dentro da caixa do outro; e cada um diz que sabe o que é um besouro apenas por olhar seu besouro. – Poderia ser que cada um tivesse algo diferente em sua caixa. Sim, poderíamos imaginar que uma tal coisa se modificasse continuamente. Mas, e se a palavra ‘besouro’ tivesse um uso para estas pessoas? – Neste caso, não seria o da designação de uma coisa. A coisa na caixa não pertence, de nenhum modo, ao jogo de linguagem nem mesmo como um algo; pois a caixa poderia também estar vazia. – Não, por meio desta coisa na caixa, pode-se ‘abreviar’; seja o que for, é suprimido. Isto significa: quando se constrói a gramática da expressão da sensação segundo o modelo ‘objeto e designação’, então o objeto cai fora da observação, como irrelevante”.

A dor, diferentemente de um sentimento, é uma sensação. Pode assumir um caráter de sentimento, dor de amor por ex., no âmbito de um jogo de linguagem poético. Porém dor, na acepção médica da palavra, nos jogos de linguagem médicos, sempre será uma sensação. Mas quando se avalia a privacidade advinda da palavra, não importa se é sensação ou sentimento, pois é algo exclusivamente pessoal. Portanto mensurá-la é uma tarefa impossível. Mas como um médico pode tentar entender e tratar empiricamente/cientificamente outra pessoa que exclama tenho dor! à sua frente?

Poder-se-ia alegar que, para o médico, resta crer na presença e na intensidade da dor de seu paciente. Assim se pode representar que, mesmo supondo que este médico não tenha experienciado em si mesmo a sensação dolorosa e/ou a intensidade desta dor por não tê-la sofrido deste modo ou nesta mesma intensidade, este possa arguir sobre a presença ou intensidade da dor do outro e, a partir disto, tenha plena capacidade de erigir um juízo correto para atuar com vistas a tratar o sintoma do paciente. E isto sempre dentro dos preceitos de sua profissão médica, na tentativa de extinguir ou minimizer esta sensação nefasta. Na passagem 350, Wittgenstein fala: “… não é nenhuma elucidação dizer: a suposição de que ele tem dores é exatamente a suposição de que ele tem o mesmo que eu.”

Então para nos propormos a tartar a dor – ou qualquer outra afecção médica -, temos que entendê-la sem necessariamente que esta a nós tenha ocorrido total ou parcialmente. De alguma maneira temos que ter acesso a certa ideia que nos permita construir uma estratégia terapêutica para o sintoma presente, e sempre baseado na informação do outro – o paciente -. Poderíamos imaginar, como pintores, que ao pintarmos um quadro, se realmente seria algo factível a todos os indivíduos que a este quadro olham, enxergarem o azul celeste do firmamento por mim pintado da mesma forma e com a nuance que eu quis transmitir. E este tipo de questionamento certamente era o que permeava os filósofos pré-socráticos (como Heráclito e Parmênides), e também Platão, quando este, fundindo conceitos heraclitianos e pamenidianos, e construindo a explicação metafísica do mundo das formas como elucidação definitiva desta questão entre o ser e o devir, erige a ideia de universais. Mas, como citamos, Wittgenstein, através da linguagem, pôs por terra esta abordagem metafísica platônica. Nas passagens 380 e 381, Wittgenstein sustenta que apenas a linguagem, sem a necessidade de um mundo metafísico platônico, seria suficiente para dar conta do problema do entender o que os outros privadamente sentem:

“Não poderia aplicar nenhuma regra à passagem privada daquilo que é visto para a palavra. Aqui as regras estão realmente suspensas no ar; pois falta a intuição de sua aplicação. Como reconheço que esta cor é vermelha? Uma resposta seria: ‘Eu aprendi português’”

Ele, assim, estabelece que não se faz fundamental a necessidade do conceito de “fora deste mundo” para que se dê um significado para a dor do semelhante. Pois com as inúmeras significações da linguagem acopladas às semelhanças de família e aplicadas aos inúmeros jogos de linguagem, pode-se ter a possibilidade de apreender um conceito pessoal do outro, entendê-lo e reagir, se necessário, a este entendimento. A linguagem dá conta de, direcionando nosso espírito, abarcar o entendimento de o que é dor, e especificamente a dor de uma questão particular, dando assim ao médico as armas necessárias ao tratamento deste terrível sintoma.

Perto do fim do livro, na passagem XI da segunda parte, lê-se:

“Tem sentido dizer que os homens em geral estão de acordo aos seus juízos sobre dor? Como seria, se fosse diferente? – Este diria que a flor é vermelha, aquela, que é azul ets etc – Mas com que direito se poderia chamar então as palavras ‘vermelho’ e ‘azul’ desses homens, de nossas ‘palavras de cor’?”

 

Aqui o filósofo explicita que pelo fato de sermos humanos, temos as mesmas sensações e os mesmo sentimentos, ou seja, dor e suas mais variadas intensidades e formas, é dor igual em nós todos. O universal platônico, antes de estar em um mundo da ideias e “fora deste mundo”:, está dentro da linguagem, que é fruto do espírito humano.

Por derradeiro, a dialética de Wittgenstein nos mostra que quando se considera a significação da palavra dor dentro da linguagem, um conceito se apreende sem a necessidade de este ser captado por nosso espírito como um conceito metafísico advindo de um mundo “fora deste nosso mundo”. A gramática filosófica da palavra dor, nos autoriza a usar esta palavra dentro dos mais variados jogos de linguagem. E é esta a ferramenta linguística suficiente para se entender a dimensão da significação desta sensação quando proferida por outro homem, sem necessariamente sentirmos esta dor ou termos dela um universal metafísico. E assim, o médico pode avaliar e tratar esta dor, como o pintor pode observar uma cor, pintá-la, e ter certeza que todos os indivíduos do gênero homo sapiens irão percebê-la da mesma maneira.

Bibliografia:

 

BASTOS, Carolina Orlando. A interpretação de Wittgenstein sobre a linguagem agostiniana, Sacrilegens, Rev. Al. Prog. Pós-grad. Ci. Rel, UFJF, Juiz de Fora,v.10,n.2, p.152-162, jul-dez/2013.

CARDOSO, João Santos. A visão agostiniana da linguagem segundo Wittgenstein, http://www.uesb.br/recom/anais/artigos/01/A%20visão%20agostiniana%20da%20linguagem%20segundo%20Wittgenstein%20-%20João%20Santos%20Cardoso.pdf

DONAT, Mirian. Linguagem e Significado nas Investigações Filosóficas de Wittgenstei: uma análise do argumento da linguagem privada, Univ. Fed. de São Carlos, CECiHum. Programa de pós-graduação em Filosofia, 2008.

HEBECHE, Luis. A Filosofia sub specie grammaticae – Curso sobre Wittgenstein, Editora UFSC.

SANTOS, Ivanildo. Wittgenstein e a importância dos jogos de linguagem na educação infantil; Educação & Linguagem, ano 11, n 17, 160-167, jan.-jun. 2008.

SILVA SANTOS, Bento; Mulinari, Filicio. Agostinho e Wittgenstein em torno da linguagem: o problema da significação, Mirabilia 20 (2015/1), Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique, Jan-Jun 2015/ISSN 1676-5818.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas, 1999, Editora Nova Cultural.

 

Teri Roberto Guérios

4 comentários sobre “ENTENDER E MENSURAR A DOR DO OUTRO: INSTIUIR – Apresentado no IV CONGRESSO SUL BRASILEIRO DE ESTUDOS da DOR

  1. Excelente texto! Pontual e com questões bem pertinentes.

    Fiquei muito feliz também por ter sido usado como referência.

    Grande abraço,

    Filicio Mulinari

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